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O Verdadeiro Amor

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Samuelson Paulo

Tudo começou numa quarta-feira, quando ouvi a voz da minha mãe chamando os nossos nomes, Gaspar e Ismael, acordem a casa está pegando fogo, ao acordar não acreditei o que os meus olhos viam, antes de dormirmos tivemos uma noite linda, jantamos em família, eu, o meu irmão e a nossa mãe. Ao ver a casa queimada indaguei-me, o que será da nossa vida. Ao vê-la acabando com o fogo enquanto nós ainda estávamos dentro, o principal objectivo era sairmos. Tudo estava acabando, até a porta que usávamos para entrar e sair. A minha mãe saiu correndo chamando os nossos nomes, ao sairmos, eu e a minha mãe só choramos pela perda da casa.

Os vizinhos apagavam o fogo que dizimava o único lugar que nos escondíamos da nossa pobreza, outros vizinhos acalmavam a minha mãe que não parava de chorar, choro acompanhado com palavras de desespero. Senti que não estávamos completos, mas não sabia o que faltava, ao procurar saber o que estava acontecendo comigo, um dos vizinhos, perguntou-me onde é que estava o Ismael, o meu irmão de 5 anos, foi dai que tive a certeza que algo estava faltando, pois era o meu único irmão que não estava entre nós, chamei pelo seu nome por duas vezes, ele não respondia, quando chamava pela terceira vez enquanto as minhas lágrimas me acompanhavam, ouvimos um grito de choro vindo de dentro da casa, era difícil acreditar que o meu irmão ainda encontrava-se dentro, os vizinhos já nem sabiam o que fazer, os bombeiros nem davam sinal de vida, eu não podia perder o meu irmão, foi difícil ver o meu pai morrendo vítima da Tuberculose.

Não pensei em mais nada a não ser salvar o meu irmão, levei uma manta e cobri-me, ao fazer isso, os vizinhos começaram a segurar-me, dizendo que era arriscado o que eu pensava em fazer, mas se eu não fizesse a dor seria maior, o sofrimento e a tristeza seriam o rótulo das nossas vidas. Cobri-me bem, deixando só os meus olhos para que eu pudesse ver, entrei na nossa casa, fui para o lugar em que o Ismael dormia, graças a Deus, o fogo ainda não havia dizimado aquela parte, coloquei-o no meu colo e fi-lo calar, dizendo que tudo estava controlado e que o pior já havia passado. Quando saímos da casa, um barrote caiu na nossa frente, a outra parte raspou o meu rosto. Mas isso não importava porque a porta da saída estava à nossa frente, poderia acontecer tudo naquele momento, mas eu e o Ismael sairíamos da nossa casa pela última vez ainda vivos.

Ao sairmos coloquei o Ismael no chão e deitei-me, ouvi os vizinhos dizendo que o meu rosto estava ferido, levaram-me imediatamente ao hospital, ao acordar, senti que o meu rosto estava dentro de algo, quando pegava a dor acordava. Os médicos daquele Hospital cuidaram de mim, fizeram o possível para que o meu rosto ficasse bem, com o tempo, registei melhorias e a ferida havia começado a cicatrizar, faltando apenas a fase da remoção do gesso. Fui levado a casa dos meus avós, depois do que aconteceu, voltamos para onde a minha mãe, a senhora Rute Magaia nasceu, lá começamos a nossa vida, na verdade continuaríamos com a nossa vida. Quando a ferida cicatrizou, voltei a estudar, havia parado por causa do acidente que tivemos, mas era a hora de continuar com a vida.

Nos primeiros dias de aulas, os colegas olhavam-me de uma maneira diferente e alguns tinham medo de voltar a olhar-me, eu sempre chegava cedo e sentava nas primeiras carteiras, por ser quase o primeiro a chegar, o outros colegas ao chegarem passavam pela minha frente, os meus colegas fizeram uma petição para o director da escola, pedindo para que eu trocasse de sala ou de lugar, porque não queriam que eu sentasse a frente, pois o meu rosto assustava, por conta da cicatriz causada pelo ferimento que tive ao salvar o meu irmão.

Dias depois, o director da escola veio a nossa sala, e pediu que eu fosse sentar atrás, na última carteira. Carreguei a minha pasta, o meu coração entristecido e fui sentar onde fui ordenado, o director perguntou se estava tudo bem eu sentar naquele lugar, eu respondi que isso não mudaria o meu rosto e o sentimento deles ao olharem-me, Lacrimejando, eu dizia, o meu rosto conta uma história, se eu não tivesse feito aquilo, não teria um rosto deformado, mas não estaria bem comigo, porque o meu irmão não estaria em casa neste momento e a minha mãe estaria vestindo roupas pretas, este rosto salvou uma vida, eu não só amo, mas pratico o amor. Levei a minha pasta e saí daquele lugar, que supostamente chamavam de escola e que não ensinavam sobre o amor, e muito menos a moral.

Nota: a história trazida neste texto é de origem popular, muitos conhecem oralmente, Porém eu tive a ousadia de escrevê-la com o objectivo de partilhar mais as suas lições.

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